Coxinhas, Reaças e opiniões de merda

Um dos reflexos dessa nossa “Era da Informação”, é a necessidade de se ter opinião sobre tudo. Sobre QUALQUER coisa.

opiniãoQue aliás, você valoriza excessivamente…

E opinião é algo extremamente pessoal.

De acordo com o Dicionário Priberam:

o·pi·ni·ão
(latim opinio, -onis)

substantivo feminino

1. Modo de ver pessoal. = IDEIA

2. Juízo que se forma de alguém ou de alguma coisa.

3. Adesão pessoal ao que se crê bom ou verdadeiro. = CONVICÇÃO, CRENÇA

4. Manifestação das ideias individuais a respeito de algo ou alguém (ex.: dar a sua opinião). = PARECER, VOTO

5. Credo político. (Usado também no plural.) = CRENÇA

6. [Informal]  Sentimento exagerado de orgulho ou confiança em si próprio. = AMOR-PRÓPRIO, PRESUNÇÃO

“opinião”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/opini%C3%A3o [consultado em 01-02-2014].

Destacamos ainda mais o conceito 4, e a parte de ideia INDIVIDUAL.

Sendo assim, Opinião é algo que pertence a aquela pessoa, e a ela somente. Na formação de tal conceito, a pessoa levou em conta experiências próprias, conhecimentos adquiridos, opiniões de outros, e sempre, uma boa dose de questões relacionadas à Educação familiar que essa pessoa teve. Independente de essa formação familiar ter sido “correta” ou não, ela forma uma boa base do que o ser leva para sua vida.

Mas por ser individual, e baseada em conceitos (e alguns preconceitos, que TODOS temos, sem exceção) pode até ser considerada fora da normalidade. Mas uma vez que a “normalidade” é um conceito EXTREMAMENTE mutável, uma opinião pode ser algo errado para você, que vive numa visão de universo, mas correto para outro.

Claro que, sempre há os conceitos e opiniões que EFETIVAMENTE estão fora de qualquer parâmetro humano. Tomo como exemplo a crença de certas comunidades especialmente localizadas no Oriente Médio e na África, de extirpar o clitóris das mulheres, numa crença (“opinião”) de que a mulher não deve sentir prazer, que seria algo pecaminoso, dentro de sua cultura. Aqui, a discussão não se encerra em opinião, em crença: vai muito além, no que tange ao direito humano, de não ser privado de si mesmo, ou no caso, de seu prazer. Além de qualquer discussão sexista ou em torno de prazer, nos referimos à mutilação de um ser humano, independente de seu sexo.

Mas nossa referência aqui se relaciona com o atual momento em nosso país, e o excesso de opiniões, nem sempre bem fundamentadas, sobre o que seria certo ou errado, ou o que é válido ou não.

Esquerdistas e Direitistas clamam estar certos, cada um com seus ideais de qual é o melhor sistema. Mas esquecem que de qualquer forma, seria um sistema, e sendo assim, coordenado e dirigido por seres humanos, corruptíveis. E sendo assim, NÃO IMPORTA o sistema… Sempre haverá alguém tirando vantagem.

Direita-x-Esquerda_thumb[1]Porque REALMENTE é só assim que dá pra dividir o mundo…

Um desses dias estava no Facebook, e em dada página, iniciou-se uma discussão sobre uso da violência em manifestações. Não por parte da polícia, mas dos manifestantes. Eu mesmo apontei para falta de necessidade de violência, lembrando que Gandhi libertou a Índia através disso, sem contar quando conseguiu a união dos muçulmanos e brâmanes, através de um jejum (pra quem não sabe História, Gandhi fez um jejum até que seus irmãos indianos parassem de lutar uns contra os outros; a trégua veio com os líderes de ambas as facções implorando para que ele comesse). Claro que, no processo da independência da Índia, milhares morreram. Pra quem sabe da História, milhares MESMO. Chacinados, massacrados. Eles simplesmente não lutavam. Apenas caminhavam, e eram fuzilados por soldados ingleses. Tudo isso fez com que as atenções internacionais se voltassem para lá, pressionando a Inglaterra a conceder a independência ao país. Não obtive resposta na discussão, mas pergunto: desses que incitam, corroboram e apoiam a violência, quantos estariam realmente dispostos a dar suas vidas por um ideal? Ou só é bacana destruir propriedade privada, apenas para mostrar que você tem uma questão de agressividade não dirigida?

GandhiBem dito, Mahatma…

E a eterna discussão sobre a homossexualidade? Meu amigo, se o cidadão gosta de fazer sexo daquela maneira, o problema é DELE, não seu. Ele não precisa da sua salvação. Mesmo porque, apenas lembrando, Deus é AMOR, e pediu de nós apenas que amassemos uns aos outros. Só lembrando, o que se encontra no Levítico eram regras pra manter o povo hebreu vivo durante a peregrinação no deserto. Lá também diz que você só deve usar roupas de algodão, deve usar barba, e que é “de boa” ter escravos. Mas você só usa o que lhe convém, né?

felijesusPreciso dizer mais?

Por outro lado, me perdoem, MESMO, mas eu considero desagradável mesmo quando um casal heterossexual se excede em carícias na rua. NÃO IMPORTA sua orientação ou gosto sexual, NINGUÉM precisa ver o que você faz na intimidade. Não apoio de forma alguma a violência contra os homossexuais, aliás, não apoio QUALQUER TIPO de violência. Sim, os que cometem esse tipo de atrocidade tem que ser presos, levados à justiça. E esse tipo de comportamento não pode continuar.

beijo-felix-nikoEu apoio, se não ficou claro.

Antes que eu comece a falar sobre a discussão se é “biscoito” ou “bolacha”, vou parar com os exemplos.

A questão que quero trazer aqui é: independe sua opinião sobre qualquer assunto, ela é SUA.

Você pode ser julgado ou discriminado por ela? De jeito nenhum. Aqueles mesmos que clamam por compreensão, compreendam que você tem a sua opinião por uma razão. E vai viver de acordo com isso, ou não. Talvez, se você conseguir, possa mudar essa opinião, demonstrando, através de um exemplo, através de uma boa argumentação. Mas não enfie as suas opiniões goela abaixo dos outros.

Você não quer ser forçado a aceitar a realidade dos outros? Não force a sua sobre eles.

Como diria o Sr. K, do Nerdcast: “Faça o que bem entender, mas não me encha a porra do saco!

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E por favor, não empurre suas opiniões pros outros.

AQUECIMENTO: Freud e a Educação

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Mais uma vez, galera, voltando a falar sobre livros interessantes para a nossa formação. Em específico, um livro indicado para aqueles que querem saber mais sobre a área Educacional, e a sua ligação com a Psicanálise, por exemplo.

Maria Cristina Kupfer (diretora do Instituto de Psicologia na USP), em “Freud e a Educação: O Mestre do Impossível”, nos conta sobre o desenvolvimento educacional do próprio Freud, e certos pontos que podem ser levados em conta em sua biografia que baseariam certas questões de sua teoria. As comparações sobre o desenvolvimento psicossexual e sua relação com o surgimento do desejo de saber, são particularmente esclarecedores.

A autora também nos demonstra a realidade da incompatibilidade do trabalho psicoanalítico com a educação, e como ambos seguem caminhos completamente e tortuosamente diferentes: enquanto a Psicanálise se interessa pelo indivíduo, a Pedagogia tem como ponto focal a coletividade.

Nos conta sobre tentativas (frustradas) de encontrar um ponto de encontro entre as duas propostas, da Educação e da Psicanálise, e demonstra porque ambas não se encontram.

Enfim, um grande livro (embora tenha apenas 98 páginas), para quem busca compreender mais e mais sobre a Psicologia, em todos os seus aspectos.

O livro é relativamente dificil de achar em livrarias, geralmente em sebos. Mas não é complicado achar pdf’s pela internet.

A autora pode ser vista aqui.

Divirtam-se! 😉

 

AQUECIMENTO PRAS AULAS: Como surgiu a Psicologia?

E aí, gente, preparados pro fim das férias? Já planejando o luto pelo óbito das suas horas livres?

Hoje, começando  o aquecimento pra esse novo ano de Estudos, trago pra vocês uma resenha do livro “A Construção do Eu na Modernidade: da Renascença ao Século XIX”, de Pedro Luiz Ribeiro de Santi.

1386787707_576579791_2-A-construcao-do-eu-na-Modernidade-Da-Renascenca-SorocabaPequeno, mas satisfaz! 😀

O Autor é Psicanalista. Possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1987), mestrado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1995) e doutorado em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2000). Atualmente é professor titular e pesquisador do CAEPM (Centro de altos estudos em propaganda e marketing) da Escola Superior de Propaganda e Marketing e coordenador e professor da Especialização em Teoria Psicanálitica da COGEAE/Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. (Fonte: Currículo Lattes)

O livro trata basicamente, da construção do Eu através dos séculos, desde a Renascença (dã, o título fala isso) até o início do século XIX (dã de novo), pouco antes da revolução iniciada por Wundt.

Sempre é bom lembrar, para incautos e neófitos (sim, Tio Edu comeu sopa de letrinhas no jantar), que para o surgimento da Psicologia como ciência, e anterior ao surgimento mesmo de Freud e a Psicanálise, houve todo um movimento necessário, através da História, para propiciar seu surgimento.

Pedro Luiz (somos íntimos, até parece) descreve com um vocabulário não excessivamente técnico todo o conjunto de pensamentos e ideologias que foram se criando, desfazendo, reiniciando e regredindo para o surgimento da individualidade, e sendo assim, do Eu, e especialmente, do Eu como objeto de estudo para a ciência que viria a surgir. Analisa propostas filosóficas, culturais (e isso é uma grande riqueza do livro, que demonstra através da arte, como a pintura e música, nuances claras da época), políticas, etc. Traz vários panoramas para o surgimento do pensamento filosófico científico que viria a se tornar uma das bases dessa ciência que tanto amamos.

Para quem está iniciando, ou para quem precisa relembrar as disciplinas de História da Psicologia ou Teorias e Sistemas Psicológicos (os nomes mudam dependendo da instituição, mas acabam sendo as mesmas matérias 😛 ), é uma ótima pedida. O livro é relativamente dificil de achar, em algumas livrarias só sob encomenda. Mas não é caro (R$ 40,00 na Livraria Cultura) mas vale cada centavo.

O professor doutor também é bem simpático, articulado e gente boa, como pode ser visto aqui e aqui.

Aproveitem, galera. 😉 (e não, não estamos ganhando um único tostão pela divulgação. Ainda.)

 

 

“Augustine” e os filmes sobre Psicologia

E lá vamos nós… Vai levantar aquela pessoa: “Poxa, mas a Psicologia não é só Psicanálise!”. Ok, mas não existe filme falando sobre a pesquisa do Wundt, nem do Perls, nem do Skinner, bla bla bla. Não me culpe se o cinema busca histórias mais interessantes (e realmente são, uma vez que ficar vendo Skinner condicionar um rato não teria emoção alguma) na história da Psicanálise e nos gênios que a construíram. Mais de um filme fala sobre Freud, e Jung.

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“Freud além da alma”(“Freud” 1962, John Huston), por exemplo, que conta como Freud começou estudando a Histeria, inclusive quando estudou com Charcot, em Salpetriere. E claro, seu contato com Breuer, antes da divulgação de suas pesquisas, e a própria descoberta de vários pontos centrais de sua teoria, como o Complexo de Édipo e o desenvolvimento psicossexual.

Belíssimo filme, embora haja, como se espera de um filme de mais de 50 anos, uma teatralidade exagerada dos atores, mas que passa sem maiores notas. E um ponto a ser divulgado, mais como curiosidade, é que o roteiro original deste filme foi escrito que ninguém menos que Jean Paul Sartre, sim, O Sartre.

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Mais recentemente, foi lançado “Um Método Perigoso” (“A Dangerous Method”, 2011, David Cronenberg), contando mais explicitamente, a história de Jung, quando do início de seus estudos com a Psicanálise, seu envolvimento e ruptura com Freud, e seu envolvimento com Sabina Spielrein, ela mesma se tornando, no futuro, uma grande psicanalista, aluna de Freud, e que trabalhou com a Psicologia Infantil. E há mesmo um filme sobre sua história, contando-a sob o ponto de vista de Sabina.

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“A Janela da Alma” (“Ich hiess Sabina Spielrein”, 2002, Elisabeth Martón), não confundir com o título homônimo de um filme de Win Wenders e um famoso documentário nacional. Conta, pelo lado de Sabina, como foi seu desenvolvimento, sua doença, o envolvimento com Jung, seus estudos e consequente volta à Russia, onde atuou como psicóloga num famoso centro educacional para crianças. Onde também foi assassinada durante a Segunda Guerra Mundial, por ser judia.

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E chegamos finalmente ao mencionado no título, “Augustine” (“Augustine”, 2012, Alice Winocour), que conta a história de Augustine, uma histérica, provavelmente fictícia, estudada por Charcot. Incrivelmente, Freud não é mencionado, e o caso de Augustine, com paralisia histérica, é mencionado por Freud num de seus primeiros trabalhos. E talvez, procurando alguma desnecessária polêmica para o filme, a diretora faz um desserviço a história da Psicologia. Vejam por si mesmos. Mas é um bom filme, para a compreensão dos estudos iniciais da ciência que tanto amamos.

De qualquer forma, todos eles valem a pena. Alguns estão disponíveis no Youtube, completos. Outros, procure e baixe. Ou compre. Mas não deixe de ver. 😉

Clique nas imagens para ver os trailers.

 

Da Falível Vivência do Eu

Tanto se fala hoje em dia sobre o excesso de informação, sobre a incapacidade do ser humano de estar “em dia” com o que está acontecendo no seu mundo. Se fala sobre muitas coisas, muitas teorias, muitos pensamentos. Mas será mesmo o ser humano culpado disso tudo?

Sim, e não. Sim, porque ele mesmo criou tais sistemas, tais necessidades. Mas ao mesmo tempo, jamais se perguntou, em algum momento, se teria como conviver com isso.

Qualquer informação, hoje, está à um clique de distância. Qualquer pensamento ou idéia é propagado em 140 caracteres. Qualquer acontecimento corriqueiro é registrado em fotografias, com ou sem filtro, despejadas na internet, pra “quem quiser ver”. “Quem quiser ver” = seu círculo de amizades, ou não, uma vez que você pode ou não tornar público o que você joga nas redes sociais.

Já vi várias vezes, em vários blogs, postagens que diziam “Não faça isso, não faça aquilo”, como uma moderna regra de etiqueta no mundo virtual.

Uma que me pôs a pensar foi uma que dizia “Não fale sobre os seus problemas, ninguém quer saber”. Que se assemelha a um “meme” do Facebook “Torço pela felicidade alheia: gente feliz não enche o saco!”.

Vida complicada essa, onde você é proibido de ser humano. De errar, se sentir mal com isso, e querer desabafar com aqueles que você conhece. Mas, aqueles que você conhece não tem tempo pra você. Eles precisam usar o tempo disponível para atualizar Facebook, Twitter, Instagram, e todas as redes sociais que participam. Uma imagem gritante sobre nossos tempos, surgiu justamente no Facebook…

wi-fiNão interessa que é montagem, e o texto original é em inglês…

A necessidade de mostrar o que está fazendo pra quem nem liga, supera a possibilidade de falar com quem está ali à sua frente. Claro, vai ter alguém levantando a voz e dizendo “Ah, você está exagerando, não é bem assim, etc…”.

Claro, estou exagerando, tanto quanto um economista exagera quando faz projeções negras pra sociedade em geral. Quase apocalípticas, eu diria. Mas precisamos prestar atenção também ao que fazemos conosco mesmos.

Não, não estou dizendo que é “algo mais” pra você se preocupar. Mas algo em que PENSAR (coisa tão rara hoje em dia). As pessoas pouco pensam, sobre si mesmas, e sobre o que fazem. E todo aquele excesso de informação, citado no começo? Porque além disso tudo, você ainda precisa saber o que todo mundo está fazendo nas redes sociais (em alguns casos, não são nem pessoas que são do seu circulo íntimo, mas celebridades que você “segue”). Precisa saber o que está acontecendo ao redor do mundo. Precisa saber o que acontece na casa do BBB. Precisa saber o que aconteceu no capítulo de ontem da novela.

E aí, em sua vida, você não dá conta das coisas que competem à você mesmo. Você erra, inexoravelmente, em alguma coisa, não importa o quanto você busque ser melhor, ou perfeito (coisa impossível, não sei se te avisaram).

E quando erra, ou se sente mal, vai às mesmas redes sociais, e declama sua dor para quem quiser ver.

Mas como dizem as regras de etiqueta: “Ninguém liga”.

Triste mundo esse… Se fala tanto em deixar um mundo melhor pras gerações futuras… E que gerações vamos deixar para o futuro?

crersermais-desenvolvimento-humano-e-empresarial-3-780x461“Senhores, a taxa de suicídio tem aumentado exponencialmente… Mas quem liga? Vou atualizar meu Instagram!”

Do medo que habita em você…

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Não é aquele pequeno tremor, ou susto de quando você via Freddie Krueger ou Jason Vorhees. Ou mais atualmente, Ghostface ou Jigsaw.

Não é aquela palpitação e suor quando você vai fazer algo novo, como uma entrevista de emprego ou chegar em algum lugar desconhecido.

Não é aquela adrenalina de uma luta ou de quando você salta de paraquedas.

 

É muito mais. É você se ver paralisado frente às questões mais primordiais da sua vida, como dar um simples PASSO.

É você ser subtraído da verdadeira VIDA, e colocado num simulacro. O jogo mais complicado que Jigsaw poderia perpetrar, pois mantém a pessoa num estado que não é a morte, mas também não é a vida.

jailÉ estar preso em si mesmo…

Existe a saída? Claro que existe. Ela é dura, difícil de conseguir. Mas não impossível.

Envolve um amor e um respeito por si mesmo monstruosos. Fé em si mesmo (e em algo superior à você, o que quer que seja, de Jeová à Zeus, vale), fé no futuro. Vontade de vencer, de crescer, de superar, de se melhorar. Não melhorar apenas do sintoma, mas se melhorar como ser humano. Ser mais. Ser melhor. Não por uma questão de ego, mas por uma questão de necessidade própria. Para uma melhor vida. E longe das tais grades.

Envolve se fechar um pouco para o mundo. Porque seu foco tem que ser você mesmo. Não quer dizer que você não deve acompanhar ninguém, ou não querer ninguém ao seu lado. Mas você saber ter o seu tempo para você. Só seu. E se é nisso que você crê, com a sua Força Superior.

god-is-in-the-rain.jpg w=558Or in the air, or the ground, or the fire… He is wherever you want Him to be…

E saber que nada dura para sempre. Em especial, o sofrimento. Em algum momento, isso se desfaz, isso deixa de ser importante, deixa de ser o foco… Tudo muda, tudo passa. Assim como você. E esse seu novo eu, renascido, readaptado, melhorado, para você, para os seus, e para o Universo, encontra a paz.

É um caminho longo, não há atalhos. Dolorido, cheio de percalços.

Mas cada passo nele, é válido.

Para toda a vida.

Porque liberta você. De você mesmo. Cada vez mais.

 

Ciúmes e Posse

Quantas vezes o “coração chora” porque aquela pessoa não está mais em nosso caminho? Quantas vezes a alma sofre porque não há mais esperança?

A necessidade humana de afeto e porque não dizer, de sexo, é perene e nos acompanha desde os primórdios. Mas uma imagem que sempre está atrelada/associada a isso é a noção de POSSE do ser amado.

Desde os tempos mais antigos, o homem era “proprietário” de sua esposa, e em alguns casos, o contrário também acontecia… Caso dos consortes, nas sociedades matriarcais. Pouco conhecidas no mundo ocidental, mas ainda assim, presentes.

Como se o Amor fosse uma corrente, algo que nos prende ao ser amado. Como se fossemos sua propriedade. E no desenrolar da História, como nos dias de hoje, a posse seria “compartilhada”. Uma vez que se clama por “direitos iguais a ambos os sexos”.

Vejam bem, não é a opinião deste que vos escreve, apenas uma constatação vinda de uma análise. Por favor, sem argumentação sobre “machismo” ou feminismo. Mentes aguçadas irão notar que é justamente CONTRA essa questão toda é que falo aqui.

O outro não é nossa propriedade, jamais foi, e jamais será. O outro é alguém que, por N fatores, sejam eles sexuais, físicos, ideológicos, sensuais, econômicos, está ao nosso lado querendo compartilhar sua vida conosco.

O outro não lhe PERTENCE. Não é uma POSSE. Você não tem DIREITOS sobre o outro.

Mesmo no meu fracassado casamento, eu tive a oportunidade de ouvir, ao final de tal relacionamento, de pessoas bem próximas “Você deveria ter feito valer seu direito como marido”. DIREITO como marido? Aquela pessoa não me pertence. Não é uma COISA.

Ela tem direito às suas escolhas, ao seu caminho, à aquilo que seu coração desejar. E num dado momento, eu deixei de ser algo que o coração dela desejava.

Dói? Claro que dói.

Notar que você não é mais parte daquele mundo daquela pessoa, que vocês, que tanto compartilharam, de repente, não seguem mais o mesmo caminho. Os sonhos que vinham à frente, simplesmente deixaram de existir. E isso não acontece (ou aconteceu) apenas no meu, ou NOS casamentos de qualquer ser humano. Qualquer fim de relacionamento, independente mesmo de opção sexual, é assim.

“Tio Edu, estamos falando de fim de relacionamento ou de ciúmes e posse, como é o título do post?”

Acalme-se, jovem mente impúbere. Acaba se tratando do mesmo tema. Vamos chegar lá.

O que mais mexe com a gente, não é tanto a falta de contato com o outro. Mas aquilo que só nós tinhamos com aquela pessoa… Não apenas os momentos de carinho, não apenas as ligações, ou, nestes tempos de modernidade, madrugadas no Whatsapp…

O principal é o futuro desfeito. Os sonhos que deixam de existir. (Sim, eu estou me perfazendo) Mas porque? Aquela pessoa pertencia à você, aquele futuro com ela lhe pertencia, era algo que ninguém jamais poderia ter lhe tirado…

Não, aquela pessoa não lhe pertencia, nem tal futuro.

E após o final do relacionamento, vem aquela fase de dor, de sofrimento, e de ver a pessoa outrora amada com outro… E os ciúmes… Ah, os ciúmes de algo que não é seu… Que não lhe pertence mais? Que digo? NUNCA lhe pertenceu. Aquele ser tem desejos e vontades próprias, e não faz parte mais do seu caminho. Por que insiste em querer que ele permaneça no seu caminho?

Porque você ainda considera que ele é SEU. E não é. Nunca foi. E não será, ainda que vocês voltem a ter um relacionamento. Este SER não é PROPRIEDADE sua. NUNCA será.

Abra seus olhos e compreenda que a sua única propriedade é você mesmo. Aquele ser pode escolher compartilhar a vida com você… Mas ainda assim, ele não é SEU.

Ciúmes? Algo que pode até ser bonitinho, quando existe com parcimônia, porque mostra que o outro gosta de estar com você, partilhar sua vida, e não quer deixar de estar com você. Mas esse ser não é SEU.

Um ser não tem propriedade sobre o outro. Lembrando um post anterior, com a “Oração da Gestalt”: “Eu sou eu, você é você.”

Sempre é bonito ver certas cenas no cinema, que retratam tal questão. Eu, particularmente, gosto muito desta cena de Moulin Rouge, o “Tango de Roxanne”.

Sim, é lindo…

 

Mas vale lembrar o quanto é doentio… Aquele ser não lhe pertence. Todos apreciamos porque, via de regra, entendemos profundamente a dor de perder o Amor.

Perder o Amor dói. Mas faz crescer.

E aprender a ter um Amor, que um dia, não vá embora.

Mas porque quer partilhar o restante da vida com você. Não por lhe pertencer.

 

 

 

 

A Oração da Gestalt

“Eu sou eu, você é você. Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas. Eu sou eu, você é você. Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas. E nem você o está para viver de acordo com as minhas. Eu sou eu, você é você. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer.”

Fritz Perls, 1969

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Fritz, na vibe #papainoeldewoodstockfeelings

Friederich Salomon Perls (1893-1970), conhecido como Fritz Perls, foi um psiquiatra e psicoterapeuta alemão que, juntamente com sua esposa, Laura Perls, fundou uma escola de estudo psicológico denominado Gestalt-terapia, que, de forma bem simplificada versa sobre a realidade do aqui e agora, o organismo como totalidade, a unidade organismo/meio, a dominância da necessidade emergente e uma reflexão sobre o conceito de agressão, que é entendida como uma força biológica importante para o crescimento.

De uma forma mais prática, o indivíduo é entendido como uma entidade inteira, e não divisível. Tudo que ele é, o é AGORA. As “partes” não são tão relevantes, e sim o quanto influenciam no Todo do ser. E sempre se é necessário enxergar além.

Mas acima de tudo, se leva em questão o conceito da (e do direito de) individualidade de cada um. Temos, às vezes, a necessidade de buscar determinadas coisas, especialmente NAS pessoas com quem nos relacionamos, algo que elas não tem/podem dar. Geramos EXPECTATIVAS sobre as pessoas, mas elas REALMENTE não são obrigadas a corresponder ou viver de acordo com aquilo que NÓS queremos. E nem nós as delas.

Se houver um encontro dessas duas realidades, quereres, expectativas, desejos de ambas as partes, isso, efetivamente, é LINDO. Mas quando não há, não adianta lutar ou tentar “fazer por onde”. As coisas não dão certo, ambos se frustram, e se constrói tristeza onde deveria haver felicidade.

Que cada um siga seu caminho, cada um seja o que é de verdade, porque só nós mesmos sabemos a dor e a delicia de ser quem somos. E sendo verdadeiros, conosco mesmos e com o outro, aí sim, podemos ser felizes. :)

Danke schön, Fritz!

perls97

 

“De nada, galhere…” :D

Freud, Jung e “Um Método Perigoso”

Desde que fiquei sabendo sobre esse filme, já imaginei mil coisas… Não apenas detalhes técnicos, efeitos, maquiagem, figurino, etc. Mas especialmente, quanto à interpretação desses dois personagens tão incríveis da história, Freud e Jung.

Desde que comecei a gostar de Psicologia, os nomes de ambos sempre foram referência. Estudar suas obras é algo quase obrigatório, pra quem quer entender um pouco mais sobre o ser humano e sobre SER humano. Freud abriu portas, janelas, alçapões e portinholas da mente. Jung mostrou que dava pra fazer um puxadinho nos cômodos :P. Brincadeiras à parte, são duas mentes brilhantes, que abriram todo o caminho que a Psicologia moderna traçou. Claro que há pontos falhos nas teorias de ambos (na de Freud, muito mais, como se sabe hoje), mas nada apaga o pioneirismo de ambos. Claro que muito mais de Freud, que foi quase um “tutor” de Jung, mas ambos começaram tudo o que sabemos hoje.

Sou apaixonado por Jung e sua teoria, já li inclusive sua biografia “Memórias, Sonhos e Reflexões”. A visão mais abrangente e a inclusão de toda a vivência do ser humano, não apenas sua frustração sexual, sempre me foi mais crível do que a visão Freudiana de “tudo leva ao sexo”.  Se continuar falando sobre isso, vou fugir do tema.

A questão é que são duas figuras históricas, internacionalmente conhecidas, e fazer uma estória que não tivesse o devido conteúdo e respeito à história de ambos, teríamos apenas um filme que aborda o que é a psico-análise (como Freud gosta de dizer). Mas o filme consegue ir além.

O Rei Aragorn Viggo Mortensen consegue (ainda que seja um coadjuvante) roubar a cena, cada vez que aparece. Só posso dizer que você consegue crer que é FREUD, de verdade, ali. Ainda que não haja tanta semelhança física entre Freud e Viggo Mortensen, você consegue crer que aquele É o tal “Pai da Psicanálise”. Pra quem leu algum dos livros de Freud, consegue até mesmo identificar sua forma de discorrer sobre certos assuntos. E seu onipresente charuto, companheiro em todas as cenas.

“This is Anduril, the sword of… / Wait, it is a falic symbol, that sword of yours…”

Eu já tinha me tornado fã de Magneto Michael Fassbender desde sua atuação em “X-Men: First Class”, e sua atuação como Jung não me decepcionou nem um pouco. Ele é mais parecido com Jung, fisicamente. Mas sua atuação ultrapassa qualquer semelhança física. Ele consegue dar dimensão para aquele homem, mostrando-o como homem. Jung era um gênio, mas o filme, a atuação, fazem você sentir o que ele sentia… A angústia, fosse por desejo, fosse pelo medo (ao fim do filme, não vou fazer spoilers). Só me chateou não terem mencionado toda a “individuação” de Jung, a construção de Bolingen, mas só isso já daria outro filme… (David Cronenberg, anota aí!)

“Os arquétipos estão presentes no inconsci… / Eu vou destruir os humanos!”

O diretor David Cronenberg consegue captar o que é mais importante, acima de tudo: ambos são seres humanos. Que descobriram algo muito maior que eles mesmos, mas são, acima de tudo humanos, e assim, providos de sentimentos, desejos, necessidades. E que tem que lutar, cada um à sua forma: no caso de Jung, contra seus desejos, no de Freud, contra sua própria idealização limitada (freudianos atiram pedras no Tio Edu, nesse momento).

Quando contracenam, é de arrepiar. Pra mim, uma das cenas mais brilhantes do filme é quando ambos estão num navio, à caminho da América, para um congresso. Jung conta um de seus sonhos, Freud o interpreta. Quando Jung pede para que Freud conte um dos seus, ele retruca: “Não quero perder minha autoridade”.

Elizabeth Swann Keira Knightley também está fantástica (e paga peitinho várias vezes). As cenas iniciais, com ela tendo ataques histéricos, e a progressiva melhora, bem como tudo o mais que acontece com a personagem (Sabina Spielrein), são interpretados maravilhosamente bem.

“He spanked me!”

Vale ainda o comentário sobre o marido da Monica Bellucci Vincent Cassel, interpretando Otto Gross, um médico que foi paciente de Freud, e que quase leva Jung à loucura.

“Jung, meu brother, toma mais uma aí…”

Se não sair UM Oscar de atuação pra um deles, a Academia é uma farsa (ou seja, não vai sair Oscar pra eles :P).

Só posso dizer: é um GRANDE filme. Diria até obrigatório, mas como boa parte das pessoas hoje em dia prefere NÃO usar o cérebro, não adianta muito.

Acompanha o trailer, pra quem quer ter mais um gostinho…