SER PSICÓLOGO

“Ser psicólogo é uma imensa responsabilidade.
Não apenas isso, é também uma notável dádiva.
Desenvolvemos o dom de usar a palavra, o olhar,
as nossas expressões, e até mesmo o silêncio.
O dom de tirar lá de dentro o melhor que temos
para cuidar, fortalecer, compreender, aliviar.

Ser psicólogo é um ofício tremendamente sério.
Mas não apenas isso, é também um grande privilégio.
Pois não há maior que o de tocar no que há de mais
precioso e sagrado em um ser humano: seu segredo,
seu medo, suas alegrias, prazeres e inquietações.

Somos psicólogos e trememos diante da constatação
de que temos instrumentos capazes de
favorecer o bem ou o mal, a construção ou a destruição.
Mas ao lado disso desfrutamos de uma inefável bênção
que é poder dar a alguém o toque, a chave que pode abrir portas
para a realização de seus mais caros e íntimos sonhos.

Quero, como psicólogo aprender a ouvir sem julgar,
ver sem me escandalizar, e sempre acreditar no bem.
Mesmo na contra-esperança, esperar.
E quando falar, ter consciência do peso da minha palavra,
do conselho, da minha sinalização.
Que as lágrimas que diante de mim rolarem,
pensamentos, declarações e esperanças testemunhadas,
sejam segredos que me acompanhem até o fim.

E que eu possa ao final ser agradecido pelo privilégio de
ter vivido para ajudar as pessoas a serem mais felizes.
O privilégio de tantas vezes ter sido único na vida de alguém que
não tinha com quem contar para dividir sua solidão,
sua angústia, seus desejos.
Alguém que sonhava ser mais feliz, e pôde comigo descobrir
que isso só começa quando a gente consegue
realmente se conhecer e se aceitar.”

Walmir Monteiro

~~Tamires Thomaz

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Freud, Jung e “Um Método Perigoso”

Desde que fiquei sabendo sobre esse filme, já imaginei mil coisas… Não apenas detalhes técnicos, efeitos, maquiagem, figurino, etc. Mas especialmente, quanto à interpretação desses dois personagens tão incríveis da história, Freud e Jung.

Desde que comecei a gostar de Psicologia, os nomes de ambos sempre foram referência. Estudar suas obras é algo quase obrigatório, pra quem quer entender um pouco mais sobre o ser humano e sobre SER humano. Freud abriu portas, janelas, alçapões e portinholas da mente. Jung mostrou que dava pra fazer um puxadinho nos cômodos :P. Brincadeiras à parte, são duas mentes brilhantes, que abriram todo o caminho que a Psicologia moderna traçou. Claro que há pontos falhos nas teorias de ambos (na de Freud, muito mais, como se sabe hoje), mas nada apaga o pioneirismo de ambos. Claro que muito mais de Freud, que foi quase um “tutor” de Jung, mas ambos começaram tudo o que sabemos hoje.

Sou apaixonado por Jung e sua teoria, já li inclusive sua biografia “Memórias, Sonhos e Reflexões”. A visão mais abrangente e a inclusão de toda a vivência do ser humano, não apenas sua frustração sexual, sempre me foi mais crível do que a visão Freudiana de “tudo leva ao sexo”.  Se continuar falando sobre isso, vou fugir do tema.

A questão é que são duas figuras históricas, internacionalmente conhecidas, e fazer uma estória que não tivesse o devido conteúdo e respeito à história de ambos, teríamos apenas um filme que aborda o que é a psico-análise (como Freud gosta de dizer). Mas o filme consegue ir além.

O Rei Aragorn Viggo Mortensen consegue (ainda que seja um coadjuvante) roubar a cena, cada vez que aparece. Só posso dizer que você consegue crer que é FREUD, de verdade, ali. Ainda que não haja tanta semelhança física entre Freud e Viggo Mortensen, você consegue crer que aquele É o tal “Pai da Psicanálise”. Pra quem leu algum dos livros de Freud, consegue até mesmo identificar sua forma de discorrer sobre certos assuntos. E seu onipresente charuto, companheiro em todas as cenas.

“This is Anduril, the sword of… / Wait, it is a falic symbol, that sword of yours…”

Eu já tinha me tornado fã de Magneto Michael Fassbender desde sua atuação em “X-Men: First Class”, e sua atuação como Jung não me decepcionou nem um pouco. Ele é mais parecido com Jung, fisicamente. Mas sua atuação ultrapassa qualquer semelhança física. Ele consegue dar dimensão para aquele homem, mostrando-o como homem. Jung era um gênio, mas o filme, a atuação, fazem você sentir o que ele sentia… A angústia, fosse por desejo, fosse pelo medo (ao fim do filme, não vou fazer spoilers). Só me chateou não terem mencionado toda a “individuação” de Jung, a construção de Bolingen, mas só isso já daria outro filme… (David Cronenberg, anota aí!)

“Os arquétipos estão presentes no inconsci… / Eu vou destruir os humanos!”

O diretor David Cronenberg consegue captar o que é mais importante, acima de tudo: ambos são seres humanos. Que descobriram algo muito maior que eles mesmos, mas são, acima de tudo humanos, e assim, providos de sentimentos, desejos, necessidades. E que tem que lutar, cada um à sua forma: no caso de Jung, contra seus desejos, no de Freud, contra sua própria idealização limitada (freudianos atiram pedras no Tio Edu, nesse momento).

Quando contracenam, é de arrepiar. Pra mim, uma das cenas mais brilhantes do filme é quando ambos estão num navio, à caminho da América, para um congresso. Jung conta um de seus sonhos, Freud o interpreta. Quando Jung pede para que Freud conte um dos seus, ele retruca: “Não quero perder minha autoridade”.

Elizabeth Swann Keira Knightley também está fantástica (e paga peitinho várias vezes). As cenas iniciais, com ela tendo ataques histéricos, e a progressiva melhora, bem como tudo o mais que acontece com a personagem (Sabina Spielrein), são interpretados maravilhosamente bem.

“He spanked me!”

Vale ainda o comentário sobre o marido da Monica Bellucci Vincent Cassel, interpretando Otto Gross, um médico que foi paciente de Freud, e que quase leva Jung à loucura.

“Jung, meu brother, toma mais uma aí…”

Se não sair UM Oscar de atuação pra um deles, a Academia é uma farsa (ou seja, não vai sair Oscar pra eles :P).

Só posso dizer: é um GRANDE filme. Diria até obrigatório, mas como boa parte das pessoas hoje em dia prefere NÃO usar o cérebro, não adianta muito.

Acompanha o trailer, pra quem quer ter mais um gostinho…